quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Krapp's Last Tape




Um dos espetáculos mais esperados do Porto Alegre em Cena deste ano, Krapp’s Last Tape fala sobre um homem de 70 anos que, no dia de seu aniversário, resolve ouvir uma gravação que fez há 30 anos. A partir desse momento, ele vai se lembrando da história que ouve e reagindo perante a essas memórias.

Bob Wilson, diretor e ator da peça, trabalha muito bem o texto de Beckett. Os 20 minutos iniciais, em que permanece praticamente imóvel, são marcados por forte presença cênica. Durante esse tempo, ações mínimas são apresentadas – comer bananas – em que é visível a precisão dos movimentos do ator que, mesmo lentos, estão sempre em sincronia com os efeitos sonoros. Tais efeitos possibilitaram a atmosfera sombria da cena através de altos e constantes barulhos de trovoadas.


Aliás, é importante destacar o cenário. O palco foi transformado numa sala composta por uma grandiosa “prateleira” ao fundo e mesas com jornais ao canto. O centro era o local do personagem, nele continha um aparelho para que fosse possível escutar as gravações. É aí que o ator fica a maior parte da peça. Isso não impede que sejam realizadas várias ações, tanto exteriores quanto interiores.

O figurino era semelhante ao cenário, neutro. O que entrava em contraste com o personagem cuja aparência era semelhante a de um mímico: rosto e mãos brancas. Isso possibilitou que eu o comparasse, em certos momentos, com Charles Chaplin. Principalmente na cena em que carrega as fitas: o seu andar é curto, porém rápido e com um “gingado” diferente, assemelhando-se ao do personagem de Carlitos.

Em relação ao público, não é necessário informar que o teatro estava lotado. Tanto é que a fila já havia começado às 19h45, sendo que o espetáculo só começaria às 21h. Apesar de haver casa cheia, o público se manteve atento ao palco e no final, assim como na peça, começou a chover. Porém não era a chuva da projeção, mas de aplausos.





Ficha Técnica

Texto: Samuel Beckett
Criação, direção e atuação: Robert Wilson
Desenho de cenário e concepção de luz: Robert Wilson
Desenho de figurino e colaboração para desenho de cenário: Yashi Tabassomi
Desenho de luz: A.J. Weissbard
Desenho de som: Peter Cerone e Guillaume Dulac
Diretor adjunto e gerente de palco: Sue Jane Stoker
Diretor assistente: Charles Chemin
Assistente de criação de luz: Xavier Baron
Diretor técnico: Reinhard Bichsel
Supervisor de iluminação: Aliberto Sagretti
Chefe de montagem: Corinna Gassauer
Maquiagem: Marielle Loubet
Fotografia: Lesley Leslie-Spinks
Assistente Pessoal Sr. Wilson: Bernhard Stipping
Duração: 1h10min
Classificação: 14 anos
Um projeto de Change Performing Arts
Produtores: Elisabetta di Mambro e Franco Laera
Encomendado por Grand Théâtre de Luxembourg e Spoleto52 Festival of 2 Worlds

Manuella P. Goulart é estudante do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

Flor Arrancada - Agreste Malvarosa (RJ)




Malva-Rosa é uma flor de pigmento violeta ou rosa, exibe um porte charmoso e possui poderes de cura. Para mim, a montagem da Cia. Amok de Teatro também exerceu um papel de cura. Eu saí embevecido do Teatro Carlos Carvalho, com uma mistura de euforia e admiração. Senti o pólen extasiante da flor do sertão através de um texto recheado de metáforas, uma delicadeza incomparável, uma sonoplastia certeira, uma direção seca e encadeada, e atuações poderosas.


Parece ser impossível ficar indiferente à Agreste Malvarosa. Se alguma vez eu tirava os olhos das atrizes Milene Ramalho e Rosana Barros, fazia para escutar também com os olhos a música do instrumentista Beto Lemos, que permaneceu sentado em uma cadeira pobre, executando o acompanhamento essencial no corpo do espetáculo. Sentei em um assento que fazia margem com o palco, portanto eu era banhado pela luz quente, enquanto recebia os olhares penetrantes das atrizes contando uma história de amor. Entretanto, inicialmente ou durante toda a peça, dependendo do espectador, a linguagem de atuação escolhida tem a capacidade de repelir, pois se trabalha com o exagero dos movimentos e da fala, instaurando um ambiente de força poética. Realmente, quando saí do teatro vi a maior parte dos espectadores deixando escapar elogios, mas também tinha gente de cara feia, que admitiu ter tido a vontade de se retirar do teatro. Pergunto-me como ficar desconfortável perante duas atrizes em ebulição? Justamente pela presença transparente da técnica, que não agride ou se sustenta apenas por si, mas que se envolve com o impulso da emoção como numa grande dança entre atriz e personagem.


Tanto a parte narrada quanto a parte dialogada da montagem estão bem entrelaçadas e fluem naturalmente. A direção de Ana Teixeira e Stephane Brodt decide intercalar a narração e o diálogo entre as atrizes, elas repartem o texto a fim de materializar as personagens. Enquanto Milene Ramalho segue o caminho da viúva ingênua, Rosana Barros toma conta do lavrador forte e de pele marcada. O texto do pernambucano Newton Moreno explora a inocência e ignorância das mulheres do interior do sertão nordestino, rechaçadas por um meio social que devora a diversidade com a própria boca. O início é uma celebração à descoberta amorosa, passamos a conhecer o crescimento de uma chama entre dois lavradores separados por uma cerca. Como diz a obra: Eram tímidos como caramujo. Tinha alguma coisa no amor deles que não devia acontecer. Mas aconteceu. O buraco na cerca faz com que a mulher tenha coragem de cruzá-lo e caminhe até o homem. Ouvia-se uma pele rachando na outra. E assim o casal viveu longe de tudo, em um casebre durante vinte e dois anos. Até o momento em que ele morre e as vozes dispersas da sociedade adentram enfurecidas o casebre. Descobriu-se que o marido, de nome Etevaldo, é fêmea.





A encenação não trabalha com a estética naturalista, acredita na linguagem da poesia, na universalidade dos sentimentos e das situações. A diretora Ana Teixeira diz que o intuito é recriar o agreste e não mostrar a realidade do agreste. O sertão nordestino é desterritorializado a partir do momento em que exploramos um sentimento incondicional de amor entre duas mulheres. O contexto social nordestino aparece na obra de Newton Moreno, a partir das expressões tipicamente regionais e da reação ultraconservadora do povoado diante da situação. As atrizes constroem personagens com um forte sotaque nordestino, modelando os corpos de acordo com a troca de personagem. Basta enrolar parte do figurino na cabeça e pronto, surge uma velha. É o ator com ele mesmo, teatro pobre que acaba se desdobrando em uma riqueza descomunal. É o que vemos na construção da personagem do padre, por Rosana Barros. Desesperada, a viúva pede que ele benza Etevaldo para que o espírito dele descanse em paz, mas o padre se recusa devido ao escândalo causado. Ele diz: Pelo menos se tivesse me chamado antes, nós teríamos feito de outro jeito. Já enterrei gente que nem você e ela... Etevaldo. Uma fala que serve como termômetro da hipocrisia da instituição religiosa.


O autor confessou que havia escrito o espetáculo pensando na direção de Ana e Sthephane, o que explica a harmonia entre texto dramático e montagem. Newton aceitou o convite de revisitar sua obra original, Agreste (premiado com o Shell e o APCA), transformando o casal masculino em feminino. E diz também que foi um presente voltar ao ninho de fêmeas, pois é aí que reside a origem do texto: através da conversa com uma amiga que contava, transtornada, o desconhecimento corporal / sexual entre as mulheres do sertão. O que acaba se encaixando com o imaginário sertanejo, no qual a mulher se traveste de homem a fim de espantar futuros males como a submissão.


Agreste Malvarosa expõe a força brutal do preconceito. Escancara os limites que uma construção cultural pode alcançar. Numa terra onde mulher deita com homem, não há espaço para descobrir-se mulher com outra mulher. A norma da heterossexualidade é clara e irredutível, o que está representado de forma excelente na figura do Delegado, próximo ao término da peça. Delegado - E tu num sabia que coronel num gosta dessa esfregação de fêmea com fêmea. Amanhã, na cadeia, a senhora vai conhecer macho para nunca mais se confundir.


Esse foi o momento que mais capturou a minha atenção, o trabalho vocal acasala muito bem com o texto, evocando figuras espantosas de autoridade. Mais interessante ainda, é ver a transição a partir do choque corporal entre a figura máscula e indignada do Delegado, com a figura acuada, espantada de Maria. Ela se sentia um prato de comida estragada. Uma carniça. Um penico. Um escarro. Uma doença. Um pus. Um cancro. Uma gota. Suja, suja, imunda.


Essa descrição do estado de humilhação da viúva, não mostra apenas a dimensão da perda do marido, que a coloca num estado de vulnerabilidade, mas também a sensação do indivíduo homossexual perante o preconceito que é capaz de arrasar. A eficiência do último quadro da peça é conquistada através dos méritos do cenário e da iluminação. Uma luz vermelha penetra em cada brecha do casebre de palha e madeira, incendiando o casal de amantes. Mas na crença da viúva, aquilo não era tragédia nenhuma, Deus havia escutado seu canto. Uniria ela com Etevaldo.


Cruel, a natureza é
Dá o sol na desmedida
Dá um corpo na desmedida
Dá o amor na desmedida.




FICHA TÉCNICA

Autor: Newton Moreno
Direção: Ana Teixeira e Stephane Brodt
Elenco: Millene Ramalho e Rosana Barros
Música (criação e interpretação): Beto Lemos
Cenografia e Figurinos: Stephane Brodt
Iluminação: Renato Machado
Realização: Millene Ramalho e Galharufa Produções
Idealização do projeto: Millene Ramalho


Guilherme Nervo é estudante do Departamento de Arte Dramática da UFRGS

sábado, 1 de outubro de 2011

O Fantástico Reparador de Feridas




Dirigida por Domingos Nunez, O Fantástico Reparador de Feridas revela a história de Frank, um homem que tem a capacidade de curar as “feridas”. No entanto, ele não tem o controle sobre o seu poder e por isso, é imprevisível quando funcionará ou não. Mesmo assim, com o auxílio de Teddy, um agente de artistas em decadência, ele viaja pelas cidades para apresentar o seu dom às pessoas.


Ao iniciar o espetáculo, o público encontra apenas uma cadeira em cena. Ao ter a consciência de que serão realizados 4 monólogos entre 3 atores, é natural que se pense que os personagens se limitarão a ficarem sentados nela e dizendo o seu texto. Porém, não é isso o que ocorre. O espaço é bem aproveitado enquanto as histórias são narradas – tanto é que o assento é pouco utilizado. Outro artifício que se encontra é uma faixa anunciando o espetáculo do “Reparador de Feridas”. Com ela, o espectador percebe o conteúdo do espetáculo.






Já na iluminação, é clara a distinção de como e quando é usada. Os aspectos são semelhantes quando o personagem tem lembranças desagradáveis, ou estão apenas “organizando suas idéias”. Além do mais, é importante destacar a sintonia entre esse artifício e o ator. Por ser bem trabalhada, proporciona com maestria o foco da cena ao espectador e embeleza a estética do que está sendo apresentado.


Outro ponto a ser ressaltado é a atuação. O texto é bem trabalhado pelos atores, mas, em certos momentos, há expressões exageradas que distanciam o público da cena. Um exemplo disso é o uso em demasia de gestos desnecessários que acabam “sublinhando” o que estava sendo dito. Além de ser repetitivo, torna a atuação previsível.


O espetáculo é cansativo. Não cito isso em razão dos 100 minutos de duração, mas devido ao “apego” ao texto. Essa característica torna limitado o número de ações em cena – e isso apesar do espaço ser bem explorado, conforme relatado anteriormente. Eis um texto interessante que poderia tornar o espetáculo mais dinâmico caso usassem algum ingrediente surpresa.





Ficha Técnica

Texto: Brian Friel
Direção: Domingos Nunez
Elenco: Walter Breda, Mariana Muniz e Fernando Paz
Figurino: Chico Cardoso
Iluminação: Aline Santini
Cenografia: Cia Ludens
Trilha sonora: Ricardo Severo
Operação de som e luz: Luz López
Direção de produção: Julio Cesar Pompeo
Produtora associada: Beatriz Kopschitz X. Bastos
Duração: 1h40min
Classificação: 14 anos

Por: Manuella P. Goulart

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Agreste Malvarosa




A partir do texto de Newton Moreno, a Cia. Amok Teatro apresenta a história de dois lavradores, que ao se conhecerem através de uma cerca ficam apaixonados. Para que fiquem juntos, os dois fogem e vão morar no meio do Sertão. Porém, após 22 anos, o homem da casa falece. No velório, a viúva descobre algo que modificará a sua vida e chocará a sociedade.


O relato, narrado por duas mulheres nordestinas, é dito de forma lenta e bem marcada. No entanto, isso não prejudica o entendimento do que é falado, mas auxilia na atuação das atrizes. É evidente a emoção sentida durante o texto: os olhos brilham a cada frase dita e as expressões são marcantes. Em momento algum o público se inquietou ou desgrudou o olhar da cena. Aliás, o sotaque foi muito bem trabalhado, não era exagerado. Além de narradoras, a dupla interpretou vários outros personagens como a viúva, o padre e duas velhas. Sendo que todos eles eram críveis em cena e em momento algum foram interpretados com o uso de clichês. Havia marcante presença cênica.


Quando se chega na parte do velório, ao invés de usarem um ator para interpretar o defunto, foram utilizadas peças de roupas que, organizadas, simbolizavam ele. Elas não eram apenas um meio de caracterizar o personagem, mas foram manejadas quando as velhas trocavam as vestes do morto. E eis a parte mais engraçada da peça. Enquanto o serviço era feito, as velhas cantavam uma música graciosa que se modificava a cada vestimenta retirada. No entanto, ao mesmo tempo em que o público ria, o espetáculo se encaminhava para o seu momento chave que surpreendeu a todos.


Não se pode deixar de também citar o trabalho musical. É característico do Amok usar a música feita em cena por um músico, como em Kabul. As canções não tinham apenas o valor de ilustrar o que estava acontecendo no palco, mas proporcionava os momentos de tensão e auxiliava no clima do espetáculo. Em vários momentos há a vontade de fechar os olhos para ouvir a melodia.


Outros recursos usados para auxiliar no clima foi a iluminação. A escolha de cores quentes proporcionou que o público pudesse se situar no lugar onde a peça se passa, ou seja, no Sertão. Isso também permitiu que a platéia fosse presenteada com imagens belíssimas. Um momento marcante foi quando a peça chegava ao fim: enquanto a história era relatada, uma luz vermelha era evidenciada no fundo de palhas fazendo contraste com as duas atrizes sentadas em cadeiras.


Agreste Malvarosa é um espetáculo delicioso de se assistir. Mérito não apenas do cenário e da trilha sonora, mas das atrizes que emocionam ao público com a grandiosa atuação e do texto que, mesmo sendo voltado para a cultura nordestina, é muito próximo da realidade de todo o Brasil.






Ficha Técnica

Texto: Newton Moreno
Direção: Ana Teixeira e Stephane Brodt
Elenco: Millene Ramalho e Rosana Barros
Figurino e cenografia: Stephane Brodt
Iluminação: Renato Machado
Música: Beto Lemos
Fotografia: Marcos Souto Soares
Produção: Erick Ferraz
Duração: 1h
Classificação: 12 anos

Por: Manuella P. Goulart

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Vidas Esburacadas





Ao final de duas peças do Porto Alegre Em Cena, uma reflexão ficou ressoando dentro do meu corpo, suprimindo toda e qualquer outra sensação. Era mais ou menos assim: “- Então é isso o que somos? O ser humano pode chegar a esse ponto? Somos essa podridão?” A imagem de ser humano passada por Histórias de Amor Líquido, de Paulo José, e Pterodátilos, de Felipe Hirsch, não é nenhum pouco positiva. Estas peças comprovam o peso que a comédia é capaz de carregar, rompendo com a ideia formada de que comédias são feitas para relaxar o público. Leveza é a última coisa que esses espetáculos apresentam. Só fui me dar conta da verdadeira dimensão que elas têm, depois de um ou dois dias. Enquanto ria, no teatro, não me dava conta (ou não queria me dar conta) de que estava rindo de minha própria condição, de minha grosseria, egoísmo, superficialidade e estupidez. Ria, como todos os outros, das minhas falhas e neuroses. Ninguém está imune delas, são companheiras de vida.



Pterodátilos já se apresenta instigante no próprio nome. Um dinossauro voador do período jurássico. Por quê? Mais tarde o cenário e o texto acabam revelando os motivos. O segundo elemento que capta a atenção do espectador é o cenário de Daniela Thomas, um escândalo de funcionalidade e estética. Comunica muito bem o estado de degradação que a família retratada alcança. As relações esburacadas terminam como o cenário: um campo de guerra no qual os personagens ficam literalmente e simbolicamente sem chão. A inclinação da plataforma é outro recurso bem utilizado, como se o núcleo familiar estivesse em constante desequilíbrio. Debaixo da casa existe um cemitério, dentre as folhas secas, fósseis de um dinossauro. Os pterodátilos eram conhecidos por seu tamanho e peso, assim como por seus hábitos canibais. O que deixa clara a relação com essa família: de destruição.







Grace, uma mãe (Mariana Lima) que tem muito tempo livre, preenchido por álcool e tratamentos de beleza, uma eterna bêbada que diz o que pensa, esquece o nome da filha e é tarada pelo filho. Artur (Marco Nanini), um pai ausente e adúltero, que é expulso de casa por ter sido demitido do cargo de presidente no emprego. Ema (Marco Nanini em duplo papel), uma filha que está sempre em estado histérico, engoliu um sapato e está prestes a casar com um homem (Felipe Abib) vestido de empregada. Então, o noivo admite estar apaixonado pelo irmão dela, o filho homossexual (Álamo Facó) que acaba de voltar para a família com o vírus do HIV. Talvez porque esteja apodrecendo com mais rapidez, seja ele o personagem que tira as tábuas do cenário, que prepara as covas dos familiares. É possível acreditar nessa história? Garanto que o texto do norte-americano Nicky Silver é ainda mais sem sentido do que isso, por isso os personagens possuem um tom farsesco. É possível inclusive duvidar da condição de seres humanos, afinal eles não apresentam um passado. O presente é uma desgraça. O que se espera do futuro? Para mim essa é uma família de fantasmas, o que de forma nenhuma a torna distante de nós. As semelhanças não são poucas, inclusive.







O texto está repleto de piadas rápidas, de humor barato e instantâneo. Essa é a pior característica da peça, o que ameaça a qualidade de Pterodátilos, mas a não a popularidade. O que ficou muito explícito pelo ruído incessante das gargalhadas que ecoavam no Salão de Atos da UFRGS, que parecia a ponto de explodir de público. Diante de tanto riso, houve espaço para a perturbação? Não senti a violência ou a contração nervosa na recepção do público de domingo, dia 18 de Setembro. Bastava Marco Nanini abrir a boca ou sacolejar o corpo para o público cair da cadeira de tanto rir. Não estou questionando o trabalho do ator, que incomoda somente quando produz uma voz muito forçada, quase trancada e inaudível, mas antes problematizando a calorosa recepção. Marco Nanini constrói a filha com esmero, acreditava em cada palavra que ele dizia, enxergava uma garota desesperada sem que ele precisasse apelar ou afeminar suas características. Quanto à Mariana Lima, posso dizer que ela encarna a personagem com muita vontade, ela se entrega àquela mãe desnaturada, podre, que regurgita as falas como uma legítima bêbada. Nanini e Lima proporcionam uma aula de atuação.







Existe uma cena em que Artur deseja conversar com o filho de forma íntima. Então o filho responde: “-Fodi com homens. Por quê? Porque é bom”. Ele detalha suas relações sexuais com um linguajar baixo, admitindo ter ciência de que isso não era seguro, mas alguma coisa o impelia a essa atitude. O pai levanta e diz: “-Me sinto muito melhor depois de termos conversado”. Ele adota a mesma postura que a mulher, de negação. Ela diz que a homossexualidade do filho ficou no passado. Isso, quando ele está se envolvendo com o noivo da própria filha! A filha nega o fim do noivado, decide se tornar lésbica e dá um tiro na cabeça. Volta para o palco feliz, dizendo que a morte deu certo para ela. A notícia não abala ninguém, assim como não o faz o suicídio do noivo. A família escuta apenas o que quer escutar, estão todos escravizados na tentativa de saciar os desejos violentos de uma existência medíocre. E enquanto isso, o chão abre suas valas, a iluminação é pálida, o cenário é negro e metálico e a trilha sonora é assombrosa.







Ficha Técnica

Diretor: Felipe Hirsch
Produtor: Fernando Libonati
Cenografia e Direção de Arte: Daniela Thomas
Iluminação: Beto Bruel
Figurino: Antonio Guedes
Trilha Sonora: Nervoso
Elenco: Marco Nanini, Mariana Lima, Álamo Facó e Felipe Abib
Adaptação do texto de Nicky Silver


Por: Guilherme Nervo

Relações Escorregadias





A mesma equipe de Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César -> http://percebeoteatro.blogspot.com/2010/09/nau-fragil.html nos apresenta a peça Histórias de Amor Líquido, cuidadosamente dirigida por Paulo José e inspirada na obra Amor Líquido - sobre a fragilidade dos laços humanos, do sociólogo alemão Zygmund Baumann. É justamente sobre isso que o texto de Walter Daguerre fala, o caráter líquido das relações humanas. A era da tecnologia faz com que cada vez mais nos relacionemos de forma escorregadia, superficial. Não é um líquido que flui tranqüilo e profundamente, mas que margeia a situação e apresenta um curso atravancado. A peça explora nossa conduta ao construir relações instáveis, capazes de se desmanchar a qualquer momento. A derramar como água que goteja ou jorra.




Ao mesmo tempo em que a peça questiona essa avalanche de mídias, a dependência e o abuso tecnológico, utiliza-se delas. Não há uma cena sem projeção, os cenários hiperrealistas são criados a partir de projetores de alta qualidade que compõe as imagens. Paulo José recorreu às espetaculares projeções de Bob Wilson para tanto. A ideia original era montar uma peça seca, centrada no trabalho do ator, utilizando os meios mais elementares, entretanto como a peça falava dessas tecnologias, pareceu coerente explorá-las. A iluminação da peça não trabalhou a favor da projeção dos cenários, fez com que eles perdessem em nitidez.






Cinco atores interpretam três narrativas contadas simultaneamente. O que significa que o elenco deverá interpretar mais que um personagem e passar de um para o outro constantemente. Somando a essa situação o tema da peça – laços humanos –, o espectador pode ter uma idéia do desafio que deve ter sido trabalhar em família. Falo do parentesco entre o diretor e as atrizes Ana Kutner e Bel Kutner, pai e filhas. Somos um complexo integrado, não é fácil separar sentimentos afetivos da vida profissional. Mas essa família e o restante do elenco conseguem vencer essa barreira e apresentar uma comédia inteligente e divertida.






Rua Sem Saída é o nome da primeira história, composta por um guarda noturno e uma mulher perturbada. Ela persiste em devolver um lenço limpo para o guarda, mas possui uma doença que faz com que sangue - e aqui a figura líquida - derrame de seu nariz. A segunda história chama-se A Corretora, composta por uma mulher decidida a passar sua vida contabilizando o mundo e ajudando os clientes a saírem sempre lucrando. A terceira e última história chama-se A Casa da Ponte, composta por um casal de namorados que entra em conflito ao passar uma noite sem aparelhos eletrônicos. Como se vê, o texto é simples, são situações cotidianas. A única história que parece estar desconectada das outras é a primeira, na qual se explora o silêncio da noite sem bons resultados, a peça perde muito em dinâmica. Por mais que a direção seja excelente.



Histórias de Amor Líquido apresenta uma estrutura irregular, tem momentos bons e ruins. Às vezes parece que estamos assistindo a uma telenovela, tamanha a semelhança com a linguagem televisiva. Recurso proposital ou não, machuca o corpo do espetáculo. O ponto mais brilhante é a atuação de Bel Kutner, ela apropria-se da personagem da corretora com entusiasmo e exatidão. Caminha como quem está sempre encima de uma passarela, fala articulado e com glamour, vestindo roupas lustrosas. A atriz é muito natural ao apresentar a lógica de uma mulher capaz de vender a alma ao diabo para conseguir o que quer, ela representa o poder de enganar que a mídia sustenta e a crise do capitalismo. Uma mulher com uma filosofia insana, de que deslocamento é perda, hoje em dia podemos estar em qualquer lugar do mundo virtualmente. Não podia ser diferente, ela termina sozinha e cantando uma canção ridícula no karaokê.






Na terceira história vemos um casal em decomposição. O acordo de manterem uma relação aberta parecia ser muito eficaz. Até o momento em que eles começam a detalhar suas experiências fora do namoro, a causar ciúme e desconforto, até que ela revela a gravidez e ele se posiciona da forma mais egoísta possível. Começa a ouvir música nos fones de ouvido. Não quer conversar, esclarecer sentimentos e atitudes. Quer as coisas anestesiadas, quer o conforto do controle absoluto.



Considerando essas três histórias como um todo, podemos identificar que estamos em ruas sem saídas. A casa possui uma ponte que não dá em lugar nenhum. Existem montanhas separando os indivíduos. As relações afetivas são disformes, nebulosas e incertas. A velocidade da informação do mundo globalizado e a mudança de comportamento são fatos. Tudo se contabiliza pela situação monetária. E o capital nos destrói.






Ficha Técnica

Texto: Walter Daguerre
Direção: Paulo José
Elenco: Ana Kutner, Bel Kutner, Natália Garcez, Alcemar Vieira e Adriano Garib Figurinos: Kika Lopes
Iluminação: Maneco Quinderé
Trilha sonora: Lucas Macier
Produção executiva: Mariana Serrão
Direção de palco: Rodrigo Ávila
Operação de vídeo: Débora Amorim
Duração: 1h40min
Classificação: 16 anos


Por: Guilherme Nervo

sábado, 17 de setembro de 2011

Ney Matogrosso





Apenas o fato de Dentro da Noite ser dirigida por Ney Matogrosso já garante um bom público ao teatro. Eu já conhecia o seu trabalho musical, assim necessitava conferir como é a sua atitude no palco. Como eu sabia que várias pessoas iriam pensar dessa maneira, fui mais cedo ao Teatro Carlos Carvalho. O que eu havia previsto aconteceu: casa cheia.


A partir da atuação de Marcos Alvisi, são apresentadas duas histórias bastante distintas. A primeira, que dá título à peça, se passa dentro de um trem. Lá Rodolfo encontra um antigo conhecido para quem ele conta a sua mania de furar mulheres com agulhas. A seguinte, O Bebê de Tarlatana Rosa, se passa em uma biblioteca. Trata-se do relato de um acontecimento, no carnaval, por Heitor de Alencar.


Inicialmente o público se depara com um barulho de trem, em seguida o palco se revela e encontra-se um cenário simples constituído por uma cadeira. Essa simplicidade não impossibilita as ações do ator, que usa muito bem o palco e, mesmo nos momentos em que está sentado, tem um fluxo contínuo de ação. O assento é logo ocupado após a entrada do personagem através de vibrantes cortinas avermelhadas. O seu figurino é discreto: usa terno e um sapato branco e preto. Isso faz contraste com a atuação constituída de expressões exageradas – o que não prejudica a qualidade do espetáculo.






A obscuridade do conto é evidenciada pela trilha sonora a pela iluminação. O som que foi muito bem organizado para que possibilitasse maior envolvimento com a cena. Já o jogo de luz é o que mais impressiona – o que não é de se duvidar, pois há o auxílio do diretor que é bem reconhecido pelo seu trabalho de iluminador. Inúmeros spots são distribuídos pelo teatro e cada um deles age perfeitamente aumentando a
tensão da cena e do espectador. Há momentos em que o susto é inevitável.


Depois dessa parte pesada, o público relaxa e se diverte com o relato do debochado Heitor. Além de sua chamativa personalidade, é necessário destacar a excentricidade em seu visual: calça um sapato decorado com listras de zebra. Além disso, as músicas escolhidas auxiliam no humor da cena. No entanto, não é em razão de haver tantos elementos humorísticos que a sensação será a mesma até o fim. O espectador se surpreende com a grande reviravolta na trama: o relato animado transforma-se em algo grotesco.


Toda essa dinamicidade impossibilita que o público se canse do monólogo. E isso é auxiliado pelo bom trabalho de Marcos Alvin em parceria com Ney Matogrosso, além de, é claro, outra protagonista: a iluminação.






Ficha Técnica

Direção: Ney Matogrosso
Produção executiva: Déa Martins
Narração: Rubens de Araújo
Fotografia: Rui Mendes
Iluminação: Carlos Lafert e Marcus Alvisi
Trilha sonora: Marcus Alvisi e Henrique Jardim
Figurino: Joana Seibel
Elenco: Marcus Alvisi


Por: Manuella P. Goulart