quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Agreste Malvarosa




A partir do texto de Newton Moreno, a Cia. Amok Teatro apresenta a história de dois lavradores, que ao se conhecerem através de uma cerca ficam apaixonados. Para que fiquem juntos, os dois fogem e vão morar no meio do Sertão. Porém, após 22 anos, o homem da casa falece. No velório, a viúva descobre algo que modificará a sua vida e chocará a sociedade.


O relato, narrado por duas mulheres nordestinas, é dito de forma lenta e bem marcada. No entanto, isso não prejudica o entendimento do que é falado, mas auxilia na atuação das atrizes. É evidente a emoção sentida durante o texto: os olhos brilham a cada frase dita e as expressões são marcantes. Em momento algum o público se inquietou ou desgrudou o olhar da cena. Aliás, o sotaque foi muito bem trabalhado, não era exagerado. Além de narradoras, a dupla interpretou vários outros personagens como a viúva, o padre e duas velhas. Sendo que todos eles eram críveis em cena e em momento algum foram interpretados com o uso de clichês. Havia marcante presença cênica.


Quando se chega na parte do velório, ao invés de usarem um ator para interpretar o defunto, foram utilizadas peças de roupas que, organizadas, simbolizavam ele. Elas não eram apenas um meio de caracterizar o personagem, mas foram manejadas quando as velhas trocavam as vestes do morto. E eis a parte mais engraçada da peça. Enquanto o serviço era feito, as velhas cantavam uma música graciosa que se modificava a cada vestimenta retirada. No entanto, ao mesmo tempo em que o público ria, o espetáculo se encaminhava para o seu momento chave que surpreendeu a todos.


Não se pode deixar de também citar o trabalho musical. É característico do Amok usar a música feita em cena por um músico, como em Kabul. As canções não tinham apenas o valor de ilustrar o que estava acontecendo no palco, mas proporcionava os momentos de tensão e auxiliava no clima do espetáculo. Em vários momentos há a vontade de fechar os olhos para ouvir a melodia.


Outros recursos usados para auxiliar no clima foi a iluminação. A escolha de cores quentes proporcionou que o público pudesse se situar no lugar onde a peça se passa, ou seja, no Sertão. Isso também permitiu que a platéia fosse presenteada com imagens belíssimas. Um momento marcante foi quando a peça chegava ao fim: enquanto a história era relatada, uma luz vermelha era evidenciada no fundo de palhas fazendo contraste com as duas atrizes sentadas em cadeiras.


Agreste Malvarosa é um espetáculo delicioso de se assistir. Mérito não apenas do cenário e da trilha sonora, mas das atrizes que emocionam ao público com a grandiosa atuação e do texto que, mesmo sendo voltado para a cultura nordestina, é muito próximo da realidade de todo o Brasil.






Ficha Técnica

Texto: Newton Moreno
Direção: Ana Teixeira e Stephane Brodt
Elenco: Millene Ramalho e Rosana Barros
Figurino e cenografia: Stephane Brodt
Iluminação: Renato Machado
Música: Beto Lemos
Fotografia: Marcos Souto Soares
Produção: Erick Ferraz
Duração: 1h
Classificação: 12 anos

Por: Manuella P. Goulart

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Vidas Esburacadas





Ao final de duas peças do Porto Alegre Em Cena, uma reflexão ficou ressoando dentro do meu corpo, suprimindo toda e qualquer outra sensação. Era mais ou menos assim: “- Então é isso o que somos? O ser humano pode chegar a esse ponto? Somos essa podridão?” A imagem de ser humano passada por Histórias de Amor Líquido, de Paulo José, e Pterodátilos, de Felipe Hirsch, não é nenhum pouco positiva. Estas peças comprovam o peso que a comédia é capaz de carregar, rompendo com a ideia formada de que comédias são feitas para relaxar o público. Leveza é a última coisa que esses espetáculos apresentam. Só fui me dar conta da verdadeira dimensão que elas têm, depois de um ou dois dias. Enquanto ria, no teatro, não me dava conta (ou não queria me dar conta) de que estava rindo de minha própria condição, de minha grosseria, egoísmo, superficialidade e estupidez. Ria, como todos os outros, das minhas falhas e neuroses. Ninguém está imune delas, são companheiras de vida.



Pterodátilos já se apresenta instigante no próprio nome. Um dinossauro voador do período jurássico. Por quê? Mais tarde o cenário e o texto acabam revelando os motivos. O segundo elemento que capta a atenção do espectador é o cenário de Daniela Thomas, um escândalo de funcionalidade e estética. Comunica muito bem o estado de degradação que a família retratada alcança. As relações esburacadas terminam como o cenário: um campo de guerra no qual os personagens ficam literalmente e simbolicamente sem chão. A inclinação da plataforma é outro recurso bem utilizado, como se o núcleo familiar estivesse em constante desequilíbrio. Debaixo da casa existe um cemitério, dentre as folhas secas, fósseis de um dinossauro. Os pterodátilos eram conhecidos por seu tamanho e peso, assim como por seus hábitos canibais. O que deixa clara a relação com essa família: de destruição.







Grace, uma mãe (Mariana Lima) que tem muito tempo livre, preenchido por álcool e tratamentos de beleza, uma eterna bêbada que diz o que pensa, esquece o nome da filha e é tarada pelo filho. Artur (Marco Nanini), um pai ausente e adúltero, que é expulso de casa por ter sido demitido do cargo de presidente no emprego. Ema (Marco Nanini em duplo papel), uma filha que está sempre em estado histérico, engoliu um sapato e está prestes a casar com um homem (Felipe Abib) vestido de empregada. Então, o noivo admite estar apaixonado pelo irmão dela, o filho homossexual (Álamo Facó) que acaba de voltar para a família com o vírus do HIV. Talvez porque esteja apodrecendo com mais rapidez, seja ele o personagem que tira as tábuas do cenário, que prepara as covas dos familiares. É possível acreditar nessa história? Garanto que o texto do norte-americano Nicky Silver é ainda mais sem sentido do que isso, por isso os personagens possuem um tom farsesco. É possível inclusive duvidar da condição de seres humanos, afinal eles não apresentam um passado. O presente é uma desgraça. O que se espera do futuro? Para mim essa é uma família de fantasmas, o que de forma nenhuma a torna distante de nós. As semelhanças não são poucas, inclusive.







O texto está repleto de piadas rápidas, de humor barato e instantâneo. Essa é a pior característica da peça, o que ameaça a qualidade de Pterodátilos, mas a não a popularidade. O que ficou muito explícito pelo ruído incessante das gargalhadas que ecoavam no Salão de Atos da UFRGS, que parecia a ponto de explodir de público. Diante de tanto riso, houve espaço para a perturbação? Não senti a violência ou a contração nervosa na recepção do público de domingo, dia 18 de Setembro. Bastava Marco Nanini abrir a boca ou sacolejar o corpo para o público cair da cadeira de tanto rir. Não estou questionando o trabalho do ator, que incomoda somente quando produz uma voz muito forçada, quase trancada e inaudível, mas antes problematizando a calorosa recepção. Marco Nanini constrói a filha com esmero, acreditava em cada palavra que ele dizia, enxergava uma garota desesperada sem que ele precisasse apelar ou afeminar suas características. Quanto à Mariana Lima, posso dizer que ela encarna a personagem com muita vontade, ela se entrega àquela mãe desnaturada, podre, que regurgita as falas como uma legítima bêbada. Nanini e Lima proporcionam uma aula de atuação.







Existe uma cena em que Artur deseja conversar com o filho de forma íntima. Então o filho responde: “-Fodi com homens. Por quê? Porque é bom”. Ele detalha suas relações sexuais com um linguajar baixo, admitindo ter ciência de que isso não era seguro, mas alguma coisa o impelia a essa atitude. O pai levanta e diz: “-Me sinto muito melhor depois de termos conversado”. Ele adota a mesma postura que a mulher, de negação. Ela diz que a homossexualidade do filho ficou no passado. Isso, quando ele está se envolvendo com o noivo da própria filha! A filha nega o fim do noivado, decide se tornar lésbica e dá um tiro na cabeça. Volta para o palco feliz, dizendo que a morte deu certo para ela. A notícia não abala ninguém, assim como não o faz o suicídio do noivo. A família escuta apenas o que quer escutar, estão todos escravizados na tentativa de saciar os desejos violentos de uma existência medíocre. E enquanto isso, o chão abre suas valas, a iluminação é pálida, o cenário é negro e metálico e a trilha sonora é assombrosa.







Ficha Técnica

Diretor: Felipe Hirsch
Produtor: Fernando Libonati
Cenografia e Direção de Arte: Daniela Thomas
Iluminação: Beto Bruel
Figurino: Antonio Guedes
Trilha Sonora: Nervoso
Elenco: Marco Nanini, Mariana Lima, Álamo Facó e Felipe Abib
Adaptação do texto de Nicky Silver


Por: Guilherme Nervo

Relações Escorregadias





A mesma equipe de Um Navio no Espaço ou Ana Cristina César -> http://percebeoteatro.blogspot.com/2010/09/nau-fragil.html nos apresenta a peça Histórias de Amor Líquido, cuidadosamente dirigida por Paulo José e inspirada na obra Amor Líquido - sobre a fragilidade dos laços humanos, do sociólogo alemão Zygmund Baumann. É justamente sobre isso que o texto de Walter Daguerre fala, o caráter líquido das relações humanas. A era da tecnologia faz com que cada vez mais nos relacionemos de forma escorregadia, superficial. Não é um líquido que flui tranqüilo e profundamente, mas que margeia a situação e apresenta um curso atravancado. A peça explora nossa conduta ao construir relações instáveis, capazes de se desmanchar a qualquer momento. A derramar como água que goteja ou jorra.




Ao mesmo tempo em que a peça questiona essa avalanche de mídias, a dependência e o abuso tecnológico, utiliza-se delas. Não há uma cena sem projeção, os cenários hiperrealistas são criados a partir de projetores de alta qualidade que compõe as imagens. Paulo José recorreu às espetaculares projeções de Bob Wilson para tanto. A ideia original era montar uma peça seca, centrada no trabalho do ator, utilizando os meios mais elementares, entretanto como a peça falava dessas tecnologias, pareceu coerente explorá-las. A iluminação da peça não trabalhou a favor da projeção dos cenários, fez com que eles perdessem em nitidez.






Cinco atores interpretam três narrativas contadas simultaneamente. O que significa que o elenco deverá interpretar mais que um personagem e passar de um para o outro constantemente. Somando a essa situação o tema da peça – laços humanos –, o espectador pode ter uma idéia do desafio que deve ter sido trabalhar em família. Falo do parentesco entre o diretor e as atrizes Ana Kutner e Bel Kutner, pai e filhas. Somos um complexo integrado, não é fácil separar sentimentos afetivos da vida profissional. Mas essa família e o restante do elenco conseguem vencer essa barreira e apresentar uma comédia inteligente e divertida.






Rua Sem Saída é o nome da primeira história, composta por um guarda noturno e uma mulher perturbada. Ela persiste em devolver um lenço limpo para o guarda, mas possui uma doença que faz com que sangue - e aqui a figura líquida - derrame de seu nariz. A segunda história chama-se A Corretora, composta por uma mulher decidida a passar sua vida contabilizando o mundo e ajudando os clientes a saírem sempre lucrando. A terceira e última história chama-se A Casa da Ponte, composta por um casal de namorados que entra em conflito ao passar uma noite sem aparelhos eletrônicos. Como se vê, o texto é simples, são situações cotidianas. A única história que parece estar desconectada das outras é a primeira, na qual se explora o silêncio da noite sem bons resultados, a peça perde muito em dinâmica. Por mais que a direção seja excelente.



Histórias de Amor Líquido apresenta uma estrutura irregular, tem momentos bons e ruins. Às vezes parece que estamos assistindo a uma telenovela, tamanha a semelhança com a linguagem televisiva. Recurso proposital ou não, machuca o corpo do espetáculo. O ponto mais brilhante é a atuação de Bel Kutner, ela apropria-se da personagem da corretora com entusiasmo e exatidão. Caminha como quem está sempre encima de uma passarela, fala articulado e com glamour, vestindo roupas lustrosas. A atriz é muito natural ao apresentar a lógica de uma mulher capaz de vender a alma ao diabo para conseguir o que quer, ela representa o poder de enganar que a mídia sustenta e a crise do capitalismo. Uma mulher com uma filosofia insana, de que deslocamento é perda, hoje em dia podemos estar em qualquer lugar do mundo virtualmente. Não podia ser diferente, ela termina sozinha e cantando uma canção ridícula no karaokê.






Na terceira história vemos um casal em decomposição. O acordo de manterem uma relação aberta parecia ser muito eficaz. Até o momento em que eles começam a detalhar suas experiências fora do namoro, a causar ciúme e desconforto, até que ela revela a gravidez e ele se posiciona da forma mais egoísta possível. Começa a ouvir música nos fones de ouvido. Não quer conversar, esclarecer sentimentos e atitudes. Quer as coisas anestesiadas, quer o conforto do controle absoluto.



Considerando essas três histórias como um todo, podemos identificar que estamos em ruas sem saídas. A casa possui uma ponte que não dá em lugar nenhum. Existem montanhas separando os indivíduos. As relações afetivas são disformes, nebulosas e incertas. A velocidade da informação do mundo globalizado e a mudança de comportamento são fatos. Tudo se contabiliza pela situação monetária. E o capital nos destrói.






Ficha Técnica

Texto: Walter Daguerre
Direção: Paulo José
Elenco: Ana Kutner, Bel Kutner, Natália Garcez, Alcemar Vieira e Adriano Garib Figurinos: Kika Lopes
Iluminação: Maneco Quinderé
Trilha sonora: Lucas Macier
Produção executiva: Mariana Serrão
Direção de palco: Rodrigo Ávila
Operação de vídeo: Débora Amorim
Duração: 1h40min
Classificação: 16 anos


Por: Guilherme Nervo

sábado, 17 de setembro de 2011

Ney Matogrosso





Apenas o fato de Dentro da Noite ser dirigida por Ney Matogrosso já garante um bom público ao teatro. Eu já conhecia o seu trabalho musical, assim necessitava conferir como é a sua atitude no palco. Como eu sabia que várias pessoas iriam pensar dessa maneira, fui mais cedo ao Teatro Carlos Carvalho. O que eu havia previsto aconteceu: casa cheia.


A partir da atuação de Marcos Alvisi, são apresentadas duas histórias bastante distintas. A primeira, que dá título à peça, se passa dentro de um trem. Lá Rodolfo encontra um antigo conhecido para quem ele conta a sua mania de furar mulheres com agulhas. A seguinte, O Bebê de Tarlatana Rosa, se passa em uma biblioteca. Trata-se do relato de um acontecimento, no carnaval, por Heitor de Alencar.


Inicialmente o público se depara com um barulho de trem, em seguida o palco se revela e encontra-se um cenário simples constituído por uma cadeira. Essa simplicidade não impossibilita as ações do ator, que usa muito bem o palco e, mesmo nos momentos em que está sentado, tem um fluxo contínuo de ação. O assento é logo ocupado após a entrada do personagem através de vibrantes cortinas avermelhadas. O seu figurino é discreto: usa terno e um sapato branco e preto. Isso faz contraste com a atuação constituída de expressões exageradas – o que não prejudica a qualidade do espetáculo.






A obscuridade do conto é evidenciada pela trilha sonora a pela iluminação. O som que foi muito bem organizado para que possibilitasse maior envolvimento com a cena. Já o jogo de luz é o que mais impressiona – o que não é de se duvidar, pois há o auxílio do diretor que é bem reconhecido pelo seu trabalho de iluminador. Inúmeros spots são distribuídos pelo teatro e cada um deles age perfeitamente aumentando a
tensão da cena e do espectador. Há momentos em que o susto é inevitável.


Depois dessa parte pesada, o público relaxa e se diverte com o relato do debochado Heitor. Além de sua chamativa personalidade, é necessário destacar a excentricidade em seu visual: calça um sapato decorado com listras de zebra. Além disso, as músicas escolhidas auxiliam no humor da cena. No entanto, não é em razão de haver tantos elementos humorísticos que a sensação será a mesma até o fim. O espectador se surpreende com a grande reviravolta na trama: o relato animado transforma-se em algo grotesco.


Toda essa dinamicidade impossibilita que o público se canse do monólogo. E isso é auxiliado pelo bom trabalho de Marcos Alvin em parceria com Ney Matogrosso, além de, é claro, outra protagonista: a iluminação.






Ficha Técnica

Direção: Ney Matogrosso
Produção executiva: Déa Martins
Narração: Rubens de Araújo
Fotografia: Rui Mendes
Iluminação: Carlos Lafert e Marcus Alvisi
Trilha sonora: Marcus Alvisi e Henrique Jardim
Figurino: Joana Seibel
Elenco: Marcus Alvisi


Por: Manuella P. Goulart

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Nada do Amor me Produz em Vida





Nada Del Amor Me Produce Envidia foi a primeira peça que escolhi para assistir no Porto Alegre em Cena deste ano. A montagem argentina partiu do texto do cineasta Santiago Loza e foi dirigida pelo também diretor de cinema Diego Lerman. Estamos diante da história de uma costureira (Maria Merlino) que tem de decidir entre entregar um vestido para Eva Péron ou Libertad Lamarque.


A peça inicia com uma bela música cantada pela costureira. Com isso, já se pode destacar a belíssima voz da atriz Maria Merlino e a importância musical no espetáculo. Por ser um melodrama musical, a trilha sonora tinha um grande efeito em cena: ilustrava o que estava acontecendo e, ao mesmo tempo, demonstrava o gosto da personagem pelas “divas” do cinema e rádio-novela da década de 30.


A situação temporal foi bem definida no espetáculo, não só pelo caráter musical, mas por outros artifícios como figurino e cenário. Quando as luzes acenderam, o público se deparou com um palco com poucos objetos: havia um manequim, uma máquina de costura e uma cadeira. O figurino também é simples e não há excesso de maquiagem.


Essa visão remete à lembrança de que, na Argentina de 1930, as mulheres que não eram bem sucedidas como cantoras, acabavam seguindo a carreira de corte e costura. A personagem não é um caso à parte. É evidente a sua adoração por Libertad – tanto é que ela canta as suas canções em vários momentos – e por Eva – a primeira-dama e estrela cinematográfica argentina. Outro aspecto interessante é o seu constante diálogo com o manequim. Em vários momentos ela conta histórias comparando a sua vida, de costureira, a das cantoras. Declarando sua adoração pelos vestidos que produz. Ela passa a reprimir seu desejo de estar dentro dos vestidos que produz e, mais que isso, encima de um palco soltando a voz para um público ávido.

Há um momento em que a personagem declara que “costureiras não tem o direito de escolher”, porém, a situação muda quando Libertad Lamarque bate à sua porta e lhe encomenda um vestido. Dias depois, surge Eva Perón pedindo o mesmo que a outra solicitara. A partir disso, ela se vê numa situação contrária a que estava acostumada: há a chance de decidir algo. E é a partir desse dilema que a trama se desenvolve.





Eva e Libertad não estão na história por acaso. Além da disputa existir no espetáculo, também ocorreu algo semelhante na realidade. Ambas foram grandes atrizes, porém a segunda teve mais sucesso que a primeira. Tudo ia bem até que as duas foram contratadas para encenar La Cabalgata del Circo. Naturalmente, Lamarque ganhou o papel principal. No entanto, isso não impediu que Evita agisse como uma exclusividade: ela sempre chegava atrasada nos ensaios. Não suportando mais a situação, Libertad esbofeteou Eva na frente de todos. A intriga não acaba, após Evita se tornar primeira-dama, Lamarque vai para o México. Lá, ela protagoniza diversas telenovelas.


Não se deve esquecer de falar na atuação de Maria Merlino. Além de sua voz chamar bastante atenção, a interpretação não é diferente. O modo de atuar lembra, em vários momentos, o caso típico do melodrama, ou seja, havia alguns excessos emocionais enquanto relatava as histórias. Estes eram intercalados com momentos de expressões minimalistas – talvez porque a peça é dirigida por um cineasta. Como exemplo, pode-se citar a parte em que a personagem fica paralisada por, aproximadamente, quinze segundos enquanto relata um acontecimento passado. O que poderia dispersar a atenção do público acabou chamando a atenção.


A costureira apresenta uma personalidade ingênua, quase puritana. Apesar do apelo melodramático, fala sempre no mesmo tom de voz, como se estivesse eternamente em um estado de tranquilidade. Mas acredito que isso seja uma forma de reprimir a frustração de não ter seguido a carreira de canto. Marina é exemplar ao construir esse monólogo, ao comunicar tão bem o ato de conter.


O público foi bem participativo: Riu em diversas partes, mostrou grande satisfação – todos aplaudiram de pé por um longo período. Ao mesmo tempo, foi visível que alguns espectadores estavam desconfortáveis: saídas antes do fim da peça, tosses, remexidas no assento.

No mais, é um monólogo constituído de um texto belíssimo e recheado de interações musicais com uma atuação composta de forte presença cênica. Caso os demais espetáculos me chamarem a atenção como este, eu estarei realizada. E no fim, a costureira brilha. Está dentro do seu vestido e com a voz de um passarinho!






Ficha Técnica

Texto: Santiago Loza
Direção: Diego Lerman
Elenco: Maria Merlino
Iluminação: Fernanda Balcells
Trilha sonora: Sandra Baylac
Fotografia: Maria Sureda
Duração: 1h
Classificação: Livre

Por: Manuella P. Goulart

Desejo de Mudança




Dois Perdidos Numa Noite Suja, construído a partir da obra de Plínio Marcos (1966), mostra a situação de dois sujeitos que trabalham como carregadores de caminhão numa feira popular. Paco (Renaldo Taunay) vive tocando gaita de boca, já que a sua flauta foi roubada, e também passa o seu tempo a implicar com Tonho (Igor Kovalewski), que não vê a hora de se tornar alguém na vida, pois ele estudou, é alfabetizado. Ao entrarem em cena, é possível que o espectador tenha a sensação de que, ao longo de 85 minutos, assistirá a uma montagem congelada e lacunar, como geralmente são as montagens baseadas em textos de Beckett. A expressão misteriosa dos atores, o não-diálogo inicial e os seus aspectos físicos bem distintos, assemelham-se a trama de Estragon e Vladimir, em Esperando Godot. Porém, essa imagem vai se diluindo.


Se aqui eles também esperam, não se trata de uma espera estática, e sim dinâmica. A velocidade com que a dupla troca palavras traduz a ânsia de largar uma vida medíocre. Existe um objetivo concreto que não se resume ao ato de esperar. Essa aceleração da fala, utilizada em alguns momentos, é brilhante, parece que estamos assistindo a uma partida decisiva de ping-pong. O texto de Plínio Marcos cresce em nuance e potência ao ser dito pelos atores com muita verdade, o que nos leva a pensar que o texto foi esmiuçado com atenção e criatividade, em conjunto com uma direção (André Garolli) que só contribuiu.


Rapidamente deverá nos evocar uma pergunta: se as condições de trabalho são tão humilhantes e Tonho até mesmo está sendo ameaçado de ser espancado pelo “negrão” do vilarejo, por que não vão embora? Por que Tonho aguenta ser chamado de “boneca do negrão” e ser diariamente envenenado por Paco? Talvez, porque ambos possuam uma relação de dependência. Talvez, porque estejam escravizados. Tonho quer ir embora, mas precisa conseguir um sapato novo para ter um emprego melhor. E a solução está com Paco, que possui o objeto de desejo, mas não o cede por considerá-lo símbolo de poder. A ligação não aparece apenas entre eles, mas também com o ambiente. Como se existisse um determinado gozo em prolongar a situação, um desejo perverso de sofrimento que colide com o desejo de mudança. Mas nada se concretiza, pois os personagens não conseguem agir para que isso ocorra.





Quando parecia que estaríamos voltando a “esperar Godot”, Tonho faz uma proposta a Paco que dará uma grande reviravolta na vida de ambos. Ele pretende assaltar um casal de namorados assustando-os com sua arma de fogo sem balas. Tonho expõe o tamanho de seu coração diversas vezes, é um homem generoso, sincero, não quer machucar ninguém. Paco é o perfeito contraponto: já se imagina dando um pau no homem e abusando a namorada. É nesse momento que o público pode concretizar o que na realidade viu desde o princípio: atores em sintonia e interpretações que prendem o espectador. Afinal, é esse o foco da peça, pois o cenário é simples: dois caixotes, uma bacia com água e uma caneca. Sabemos que existe ação fora desse cenário pelos relatos dos personagens, mas o lugar que acompanhamos é o quarto de pensão dividido pelos sujeitos. Os objetos cênicos demonstram bem a situação de pobreza em que os eles vivem e o palco vazio contraria a cenografia proposta por Plínio Marcos. O diretor e a Cia. carioca Triptal de Teatro foram muito felizes ao desnudarem esse texto, que já foi tão trabalhado.


Difícil destacar apenas uma cena do esqueleto bem estruturado da peça. Mas existe uma cena arrebatadora em sua poesia: quando Tonho oferece gentilmente um cigarro à Paco e eles quase se beijam para acender os cigarros. Permanecem um tempo precioso em suspensão, com contato visual intenso, esperando o momento em que os cigarros acendam. O elo é estabelecido, entretanto, por mais que o cigarro seja prazeroso, queima o próprio corpo até reduzir-se às cinzas. Há outros momentos, como esse, em que um dos homens congela em uma foto enquanto o outro continua a dizer o texto. O que termina por nos mostrar uma interessante linguagem, que não é a do naturalismo.





Os diálogos são compostos de palavras que caracterizam esses personagens. Paco é extremamente vulgar em seus gestos, tem uma postura de malandro, usa palavras baixas, mas que possuem beleza em razão do trabalho textual eficiente, que só peca ao antecipar reações. Isso ficou claro na atuação de Renaldo Taunay, quebrando a atmosfera de veracidade. Tonho é mais discreto no que diz, ele ainda tem família, é sensível e solidário. Sua expressão revela toda a dor que sente por estar ali, com os sapatos rotos, o corpo sujo e a alma machucada.


Dois Perdidos Numa Noite Suja consegue cumprir o que todo espetáculo deveria ter como meta: atingir o público violentamente a partir de saborosos momentos de reflexão e risadas derivadas da notável presença cênica e conexão entre o elenco.





Ficha Técnica

Texto: Plínio Marcos
Adaptação: Igor Kovalewski
Direção: André Garolli
Elenco: Igor Kovalewski e Renaldo Taunay
Figurinos: Wagner Menegare
Iluminação: Pépe Ramirez
Trilha Sonora: Eduardo Agni
Produção Executiva: Igor Kovalewski e Juliana Batista
Realização: Cia Triptal e Amburana Produções Artísticas e Culturais


Por:
Manuella P. Goulart e Guilherme Nervo

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Teatro Feito À Mão




O que olhar primeiro no exuberante cenário de Cordel do Amor Sem Fim? Qual som escutar com mais atenção? Por qual cor se deixar influenciar? Qual personagem dedicar mais atenção? Essas perguntas começaram a borbulhar em mim quando entrei na Sala Álvaro Moreyra. Logo entendi por que a escolha da Sala ao invés do Teatro Renascença, a aproximação entre ator e público é fundamental, trata-se de um teatro de vivência. Não por acaso o grupo de Recife chama-se O Poste: Soluções Luminosas, a iluminação conversa com todos os outros elementos, formando e destruindo atmosferas como em um passe de mágica. É como se o grupo houvesse adicionado três personagens ao texto de Claudia Barral: a luz, a sonoplastia e a percussão. Elas estão suficientemente presentes e entrelaçadas com o enredo a ponto de adquirirem um caráter de “personagem”. As luminárias com envolto de palha em formato circular estão penduradas no fundo do palco, cobertas por redes de pesca. Ou são teias de aranha? Talvez apenas fumaça, tecido ou ilusão de ótica. De uma forma ou de outra, o campo de significação é expandido e cada um faz a sua viagem. Isso é riqueza.





Às margens do rio São Francisco, no sertão baiano, moram três irmãs completamente diferentes - a velha grosseira e encurvada Madalena, a instigante e colorida Carminha e a sonhadora aérea Tereza, a mais jovem. José é o noivo de Tereza e traz consigo um amor agressivo por ela, revelando uma personalidade animalesca. A primeira imagem da peça é formada pelos quatro tocando um tipo de instrumento e repetindo um movimento próprio ao personagem. A sensação é que eles estão debaixo do mar: a luz geral é azulada e conchas luminosas formam um caminho no solo. A corneta de som grave e arrepiante, os chocalhos frenéticos, a batida cheia de suspense do tambor e tantos outros instrumentos artesanais capazes de imitar ruídos da natureza e do homem, parecem nunca sair de cena, como se os quatro personagens trouxessem consigo um ritmo. Ritmo que ao decorrer da peça sofre algumas alterações, agita, acalma, explode, emudece. Funciona como um fragmento de alma.






Cada personagem tem um tipo bem definido de falar, andar e se posicionar. O que fica claro quando eles distanciam-se do personagem para narrar algum momento da peça. A linguagem de atuação escolhida é um dos elementos mais gritantes, é como se assistíssemos a um teatro de rua introduzido no palco. As feições são exageradas, a maquiagem transborda no rosto, o texto é dito de forma arrastada e abusando da articulação, tudo é propositalmente grande, colorido e voraz. No princípio essa encenação me incomodou, não consegui olhar com generosidade para a caricatura do ser humano como uma tipificação da commedia dell’arte. Depois, essa sensação foi diminuindo, me permiti um mergulho profundo nesse universo rico e poético, de uma cultura tão singular. Não me questiono quanto à explícita competência do trabalho de atuação, os personagens apresentam pinceladas bem trabalhadas, porém o nu de Tereza parece agir com um único objetivo: alcançar o sucesso da forma. E alcança, pois a cena em que ela se esgueira sobre as velas com os seios nus, dizendo: E o terceiro foi aquele que a Tereza deu a mão; e a outra, em que ela caminha sobre gelo seco e luz verde, coberta apenas por uma rede de pesca; são cenas estonteantes, repletas de onirismo. Entretanto precisam desse apelo? A beleza física e a sexualidade de Tereza foram bem exploradas com o vestido curto e com seus trejeitos, o nu sublinha isso de maneira excessiva e destoa com agudeza do restante da peça.






Se Deus levantou o céu com uma frase, com uma frase o céu pode desabar.

E foi essa frase, dita por Tereza, que desabou José. Com muita relutância aceitou esperar o homem que havia atravessado o peito da menina de desejo, o tal Antônio. Semanas e meses passaram, até que quatro anos completaram-se sem a aparição do homem. Para José, todas as prostitutas da cidade tinham a feição de Tereza, ele estava enlouquecido por ela. Enfim esbarrou com Antônio pela cidade, fazendo questão de assassiná-lo em um mato. Tereza espera por tanto tempo seu amor que acaba se transformando em pedra às margens do rio São Francisco.


É possível gargalhar, emocionar-se, ficar vidrado e mesmo achar tudo muito exótico em Cordel do Amor Sem Fim. As canções estão presentes em diversos momentos, além de contar a história, reforçam o universo folclórico do nordeste brasileiro. Inclusive, existe um resgate de cultura, um estudo antropológico. O elenco demonstra performances muito boas, somente a voz de Tereza (Eliz Galvão) parece destoar perante as outras. O músico canta apenas um verso: Mas toda a verdade está nos olhos de Antônio, suficiente para que a platéia volte surpreendida em direção a ele, sua voz é marcante, carrega uma tristeza encantadora.


As soluções cênicas da peça revelam uma criatividade pensada em conjunto: desde à porta que é carregada pelos personagens e capaz de se desmanchar em quatro superfícies, até à utilização de objetos que intensifiquem o nível de tensão ou distensão da cena, explorando sons inusitados, surpreendentemente musicais e ritmados. É uma grande conquista alcançar tamanha carga poética e beleza plástica a partir de recursos simples e artesanais, sem a utilização de máquinas. Por isso considero adequada a expressão “teatro feito à mão”, é delicado e poderoso.






Ficha Técnica

Texto: Claudia Barral
Encenação e Cenografia: Samuel Santos
Produção: O Poste: Soluções luminosas
Elenco: Agrinez Melo,Eliz Galvão, Naná Sodré e Thomás Aquino
Preparadora Vocal e Fonoaudióloga: Theonila Barbosa
Preparador de canto: Sebastião Câmara
Professor de Tai Chi Chuan: Sifu Manoel Francisco
Oficineiro de Percussão: Charly
Figurino: Agrinez Melo
Execução de figurino: Sara Paixão
Diretor de Arte: Fernando Kehrle
Maquiagem: Rosinha Galvão
Criação de iluminação: O Poste: Soluções Luminosas
Operação de luz e assistência de montagem: Igor Ehric
Programador Visual: Java Araujo e Samuel Santos
Sonoplastia, violão, Efeitos, instrumento de bambu Didgeridoo: Diogo Lopes
Efeitos Percussivos: O elenco
Fotografias do espetáculo: Aryella Marques
Apoio Técnico e Contrarregra: O Poste: Soluções Luminosas

Por: Guilherme Nervo

domingo, 11 de setembro de 2011

Bem-Vindos!

Os amantes de teatro Manuella Pereira Goulart e Guilherme Nervo têm o prazer de saudar nossos leitores, estejam eles dentro ou fora de cena. De qualquer forma todos contribuem para a 18ª Edição do Porto Alegre Em Cena, pois teatro só é feito com recepção.

O nosso objetivo é analisar a maior quantidade de peças que pudermos assistir, independente do gênero, grupo, nacionalidade ou estética. Queremos a diversidade de mãos dadas, de olhos nos olhos. E para isso não pouparemos palavras, vamos explorar ao máximo tudo o que esse veículo de sensações e pensamentos pode nos proporcionar e principalmente catapultar em vocês!


* Outros endereços das análises teatrais:

http://www.poashow.com.br/

http://percebeoteatro.blogspot.com/

Deixem-se mergulhar!
Aqui não existe divisão entre coração e mente, permitam-se!